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O JARDIM DE EPICURO:
QUANDO O SILÊNCIO NÃO É NEUTRO
Por Ricardo Vianna Hoffmann
Publicado em 23/09/2026 01:47 • Atualizado 23/09/2026 01:51
Entretenimento
a imagem representa o conflito entre o desejo de viver em paz e a responsabilidade de não permanecer em silêncio diante da violação dos direitos humanos.

O JARDIM DE EPICURO: QUANDO O SILÊNCIO NÃO É NEUTRO

 

Ricardo VIANNA HOFFMANN

Eu vejo de forma diferente, ciente de que cada pessoa tem o seu ponto de vista e enxerga a realidade a partir do lugar em que se encontra.

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Brusque (SC)

 

No último dia 5 de setembro de 2026, sábado, aconteceu a 111ª edição do Baralharte, transmitida pelo YouTube, com o tema "O Jardim de Epicuro", apresentado pelo filósofo Angelo Pereira Campos. Idealizado, organizado e mediado pelo professor Gilvaldo Quinzeiro, da cidade de Caxias (MA), o encontro começa por volta das 19h30 e vai até as 22h. O professor Quinzeiro quase sempre avisa que "precisamos encerrar, passou das 22h", em razão dos debates que se sucedem após a apresentação dos temas pelos palestrantes convidados, com a participação do professor Nelson, do jornalista Julimar e Contador Tarcísio, entre outros. Leitor, convido você a assistir ao Baralharte. A excelente palestra do filósofo Angelo, apresenta o pensamento do filósofo grego Epicuro. Disponível em https://www.youtube.com/watch?v=zVe0LwoH9Mk&t=15s.

Segundo Giovanni Reale e Dario Antiseri, na obra História da filosofia, vol. I, "a filosofia é considerada pela quase totalidade dos estudiosos como uma criação própria do gênio dos gregos". Prosseguem os autores afirmando que "Epicuro (341-270 a.C.) foi o fundador do 'Jardim', uma das maiores escolas filosóficas da época helenística e da filosofia grega em geral". A escola surgiu, provavelmente, por volta do fim de 307/306 a.C. e abriu suas portas a todos: "nobres e não-nobres, livres e não-livres, homens e mulheres" (Reale; Antiseri, 1990). Será que podemos dizer que Epicuro foi inclusivo?

O palestrante da noite, Angelo Pereira Campos, em uma de suas falas, disse algo que reproduzo aqui, sem o gabarito e o conhecimento dele, mais ou menos assim: há mais de dois mil anos, o filósofo grego Epicuro deixou a seus discípulos um conselho que soa, à primeira vista, sedutor: lathe biosas, que significa "vive escondido" ou "passa despercebido". Para Epicuro, a verdadeira felicidade, a ataraxia, essa tranquilidade e paz de espírito que todos buscamos, estaria mais próxima de quem se afasta da vida pública, da política e da exposição do que de quem mergulha nas disputas da praça. Epicuro fundou o seu "Jardim", uma comunidade de amigos aberta a todos, dedicada ao estudo e ao prazer moderado, justamente como refúgio contra o desgaste das arenas de poder.

Leitor, esse ponto de partida, somado ao que foi apresentado por Pereira Campos e ao próprio pensamento de Epicuro, tirou-me do sofá e me fez ler e pesquisar sobre o tema. Não tão profundamente quanto deveria, mas o suficiente para iniciar uma reflexão introdutória e opinar (afinal, "opinião e umbigo, todo mundo tem") sobre o pensamento de Epicuro e a defesa e promoção dos direitos humanos. Vamos nessa?

Hodiernamente, quem se posiciona a favor dos direitos humanos é quase sempre atacado; quem defende direitos é quase sempre hostilizado; quem levanta a voz contra injustiças vira alvo de campanhas de ódio nas redes sociais.

Portanto, é totalmente compreensível que tantos, hoje, escolham o próprio "jardim" epicurista, ou seja, prefiram desligar-se do noticiário, evitar o debate e cultivar a própria paz em um mundo que parece cada vez mais hostil a quem pensa diferente.

Mas há um problema nessa retirada, e ele não é novo. Já na Antiguidade, Plutarco escreveu um ensaio para rebater Epicuro, questionando se é mesmo virtuoso "viver escondido". Sua crítica é simples e permanece atual, somos seres sociais, e a vida em comunidade nos impõe responsabilidades que não desaparecem só porque decidimos não olhar para elas. Recolher-se à própria tranquilidade enquanto os direitos humanos são atacados e relativizados não é neutralidade, nem "ser ideologicamente de centro"; é uma escolha com consequências para quem não tem o privilégio de se esconder.

Plutarco, "nascido em Queronéia (Beócia) por volta de 46 d.C. e falecido nessa mesma cidade mais ou menos em 125", refutou os estoicos e os epicuristas. Para Epicuro, "o maior inimigo da amizade é a política", e deve-se evitá-la porque gera ansiedade e perturba a paz. Hoje constatamos isso na prática, amizades desfeitas, amigos que se distanciam em razão de ideologias políticas. Para Plutarco, ao contrário, a política é um dever moral, pois o ser humano só é virtuoso se age na comunidade.

E é exatamente isso que vemos quando políticas públicas voltadas a grupos vulneráveis são atacadas, quando o discurso de ódio se naturaliza nas redes sociais, quando a intolerância se traveste de opinião legítima. Nesses momentos, o silêncio confortável de quem pode se dar ao luxo do próprio jardim tem um custo que recai sobre quem não pode, as populações historicamente excluídas, as minorias, os que dependem da ação coletiva, e não da tranquilidade individual, para terem seus direitos reconhecidos e protegidos.

Isso não significa que a busca por equilíbrio interior seja um erro. Pelo contrário, ninguém sustenta uma luta por direitos humanos a partir da exaustão ou do estresse permanente. Mas há uma diferença enorme entre cultivar a serenidade para seguir atuando e usá-la como pretexto para se ausentar. A ataraxia de Epicuro pode até ter seu valor pessoal, mas não pode se tornar desculpa filosófica para a omissão coletiva.

Vale lembrar a máxima latina in medio virtus ("a virtude está no meio"), cuja ideia remonta a Aristóteles, na Ética a Nicômaco. É importante dizer, também, que o meio-termo aristotélico não é uma média aritmética nem um "ficar em cima do muro", é um meio relativo a nós e às circunstâncias, definido pela razão prática (phrónesis) do homem prudente. Aristóteles também adverte que certas ações, como o homicídio ou o furto, não admitem meio-termo, pois são más em si mesmas.

Defender direitos humanos, hoje, é um exercício que exige justamente o oposto do "vive escondido", exige presença, exposição e disposição para o desconforto do debate público. Não se trata de viver sem paz, mas de entender que, para muita gente, a paz de uns só existe porque outros continuam lutando, visíveis, na praça pública (e hoje, também, na "praça virtual") que Epicuro tanto recomendava evitar.

Talvez o verdadeiro convite do nosso tempo não seja "viver escondido", mas o contrário: viver visível, viver engajado e, ainda assim, tenta encontrar ali a tua própria versão de tranquilidade, in médio virtus.

Pense nisso.

Referências

ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. Tradução de Leonel Vallandro e Gerd Bornheim da versão inglesa de W. D. Ross. [S. l.: s. n., 19--?]. Disponível em: https://legado.moodle.ufsc.br/mod/resource/view.php?id=990385&forceview=1. Acesso em: 22 set. 2026.

CAMPOS, Angelo Pereira. O Jardim de Epicuro. In: TV PANTHEON E PANTHEONCAST COM JULIMAR SILVA. 111ª Edição do Baralharte – Jardim de Epicuro. [S. l.]: YouTube, 5 set. 2026. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=zVe0LwoH9Mk. Acesso em: 6 set. 2026.

HUISMAN, Denis. Dicionário dos filósofos. São Paulo: Martins Fontes, 2001.

REALE, Giovanni; ANTISERI, Dario. História da filosofia: Antiguidade e Idade Média. 2. ed. São Paulo: Paulinas, 1990. v. 1.

 

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