
UNIVERSIDADES SOB ATAQUE: Quando a Crítica Ignora a Realidade
Por Ricardo Vianna Hoffmann
“A educação não é cara; caro mesmo é a ignorância.”
Leonel Brizola
Em tempos de polarização e discursos fáceis, tornou-se cada vez mais comum ouvir ataques generalizados às universidades públicas. Empresários, políticos e líderes religiosos e outros têm ocupado espaços públicos e redes sociais para afirmar que as universidades seriam ambientes de “doutrinação”, onde jovens seriam transformados em militantes ideológicos e afastados do trabalho produtivo.
Essas afirmações, repetidas com frequência e convicção, acabam criando uma narrativa sedutora pela simplicidade: a de que a universidade seria um problema para o país.
Mas será mesmo, leitor?
Antes de aceitar essas narrativas desconectadas da realidade, é preciso olhar para a realidade concreta. Universidades públicas, estaduais e comunitárias constituem uma das principais estruturas de produção de conhecimento, formação profissional e desenvolvimento científico do Brasil.
Questioná-las é legítimo em qualquer democracia; reduzi-las a caricaturas ideológicas, porém, não contribui para o debate público e tampouco ajuda a compreender sua real função social.
Neste texto, proponho refletir sobre algumas declarações recentes, proferidas por um empresário, um deputado federal e um líder religioso, que criticam o papel das universidades brasileiras.
Para que o leitor possa conhecer diretamente o conteúdo dessas falas, disponibilizo os links de acesso: a manifestação do empresário Luciano Hang, (https://www.youtube.com/watch?v=IolbKJkAwHM), a do deputado federal Gilson Marques, (https://www.youtube.com/shorts/xNXlcY2ukMQ) e a do pastor Silas Malafaia, (https://www.youtube.com/watch?v=SznprxMEx6E), especialmente no trecho compreendido entre os minutos 3:56 e 4:33.
Mais do que reagir a essas declarações (ver vídeos), o objetivo é convidar o leitor a pensar com calma e com base em evidências sobre o que realmente acontece dentro das universidades.
Ao ouvir frases como “as pessoas que vão para as universidades federais são doutrinadas para serem zumbis”, passo a refletir que esse tipo de afirmação parte de uma generalização sem qualquer base científica e sem um mínimo de reflexão.
As universidades públicas brasileiras são compostas por milhares de professores, pesquisadores e estudantes com posições políticas diversas. Além disso, em cursos como Direito, Ciências Contábeis, Medicina, Engenharia, Educação Física ou Enfermagem, por exemplo, o conteúdo central é técnico e científico.
Como professor universitário, posso afirmar que a lógica da universidade é estimular o pensamento crítico e a pluralidade de ideias. Os estudantes entram em contato com diferentes correntes teóricas e aprendem a analisá-las, e não simplesmente a aceitá-las.
Se existe uma doutrinação, seria necessário explicar, de forma minimamente consistente, por que tantos formados em universidades públicas possuem visões políticas completamente diferentes entre si.
Leitor, outra frase merece atenção: “eles são ensinados a trabalhar no governo e a ser contra a iniciativa privada”.
Basta observar a realidade ao nosso redor. Uma simples observação empírica permite verificar que, na prática, isso não corresponde ao que acontece no mercado de trabalho.
A grande maioria dos formados em universidades atua no setor privado: empresas, hospitais privados, bancos, indústrias, startups e multinacionais. Muitos também empreendem e criam seus próprios negócios.
Ademais, inúmeras empresas dependem diretamente de pesquisas produzidas em universidades. Inovações na agricultura, na medicina, na tecnologia da informação e em novos materiais surgem frequentemente dentro dessas instituições. Ou seja, longe de serem “contra a iniciativa privada”, as universidades públicas frequentemente colaboram com ela.
Ouvi também a seguinte frase: “todo mundo acha que pode ser servidor público”.
Aqui, o exagero retórico vai longe. Nem todos os estudantes querem ser servidores públicos. Reconheço que o interesse por concursos públicos existe, mas isso ocorre por fatores estruturais e culturais do país, como estabilidade, previsibilidade de renda e status, e não por uma suposta “doutrinação universitária”.
A próxima frase complementa a anterior: “se todo mundo quer ser servidor público, quem vai pagar os impostos?”.
A pergunta, à primeira vista simples, revela um falso dilema. Economia real não funciona com “todo mundo” exercendo a mesma profissão. E faço uma nova pergunta ao leitor: os servidores públicos estão isentos do pagamento de impostos?
Claro que não. Eles também pagam impostos e bem como desempenham funções essenciais, como médicos e enfermeiros do SUS, professores, policiais, pesquisadores, procuradores, juízes e promotores. Todas essas funções, e tantas outras, garantem serviços básicos para a população e contribuem para o funcionamento da economia
Outra frase foi: “eu não colocaria meu filho numa universidade pública”.
Trata-se de uma escolha pessoal, mas que não necessariamente reflete a qualidade das instituições. Muitas universidades públicas brasileiras estão entre as melhores da América Latina e são responsáveis pela maior parte da produção científica do país. Instituições federais, estaduais e comunitárias formam profissionais qualificados em diversas áreas.
Por outro lado, a frase “porque você pode educar seu filho e ele volta comunista” transforma a universidade em uma caricatura ideológica. Universidades não existem para formar pessoas em uma ideologia específica. Elas existem para ensinar métodos científicos, formar profissionais qualificados e desenvolver pesquisa e inovação.
Claro que um estudante pode sair da universidade comunista. Mas também pode sair liberal, conservador, social-democrata, socialista ou simplesmente sem posição política definida, entre tantas outras possibilidades.
Já a frase “não quer trabalhar e quer atrapalhar quem faz” ignora o papel econômico e social da formação universitária.
Os advogados, médicos, engenheiros, professores, cientistas e administradores formados em universidades públicas não trabalham? Não contribuem para o desenvolvimento do país?
O deputado federal declarou, em pronunciamento na tribuna da Câmara dos Deputados, deixando registrado para as futuras gerações, inclusive para as suas, o seguinte: “se tem uma coisa que o Brasil não precisa é de mais universidade federal para formar militante, para gastar mais dinheiro público”.
Essa afirmação revela uma narrativa recorrente no debate político brasileiro, a tentativa de reduzir a complexidade das universidades públicas a espaços de mera militância ideológica.
Tal posicionamento evidencia uma leitura limitada sobre a função das universidades, especialmente quando parte de um agente público que, ao contrário, deveria defender uma educação de qualidade, bem como maiores investimentos nas universidades para pesquisa e extensão, mas adota um discurso que desvaloriza as instituições universitárias do país.
Paciente leitor, por sua vez, o pastor, em seu discurso (ver vídeo), dirige-se aos jovens presentes no evento e afirma que estudantes cristãos estariam sendo influenciados ideologicamente nas universidades.
Ele sustenta que muitos jovens entram em universidades públicas e acabam perdendo seus valores religiosos por “ouvirem professores humanistas, ateístas e esquerdopatas”. Nesse contexto, orienta os jovens a estarem atentos ao que chama de influência ideológica no ambiente acadêmico.
Diante dessa fala, podemos refletir: quem está influenciando ideologicamente os jovens? Entendo que essa fala, portanto, distancia os jovens das universidades, pois se trata de uma crítica sem base científica alguma, mero “achismo”, sem apresentar um único caminho para melhorar as universidades, tampouco soluções.
Leitor, quero analisar juridicamente esse discurso à luz da Constituição Federal. Nesse tipo de situação, devemos considerar dois direitos fundamentais que convivem em tensão no Estado Democrático de Direito: a liberdade de expressão e a liberdade acadêmica. A Constituição Federal de 1988 protege ambas, e nenhuma delas pode ser interpretada de forma absoluta.
Começo pela liberdade de expressão. A Constituição assegura amplamente a liberdade de manifestação do pensamento, conforme disposto no artigo 5º, inciso IV: “é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato”, e no inciso IX: “é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença”.
Isso significa que líderes religiosos, políticos, empresários, professores ou qualquer cidadão possuem o direito de emitir opiniões críticas sobre instituições sociais, inclusive universidades e sistemas educacionais.
Assim, críticas ao ambiente universitário, ainda que contundentes ou ideologicamente orientadas, estão, em princípio, protegidas pela liberdade de expressão, desde que não ultrapassem limites jurídicos, como incitação à violência, discursos de ódio, difamação ou imputação falsa de crimes.
No campo democrático, a jurisprudência do Supremo Tribunal Federal tem reiterado que a liberdade de expressão possui posição preferencial no sistema constitucional, pois constitui condição essencial para o pluralismo político e o debate público.
Por outro lado, a Constituição estabelece princípios específicos para a educação. O artigo 206, inciso II, prevê a “liberdade de aprender, ensinar, pesquisar e divulgar o pensamento, a arte e o saber”, e o inciso III estabelece o “pluralismo de ideias e de concepções pedagógicas”.
Esses dispositivos estruturam o que a doutrina denomina liberdade acadêmica, que compreende autonomia intelectual de professores e pesquisadores, liberdade de investigação científica, diversidade de perspectivas teóricas e ideológicas e proteção contra censura ou controle político do conhecimento.
Dessa forma, o ambiente universitário é concebido como um espaço de pluralidade, onde diferentes correntes filosóficas, científicas, religiosas e políticas podem ser debatidas.
A educação, à luz do direito constitucional brasileiro, busca evitar a imposição de uma única visão de mundo. O pluralismo de ideias previsto no art. 206 representa um compromisso democrático com a diversidade de perspectivas científicas, com a liberdade crítica e com o debate racional.
Art. 206. O ensino será ministrado com base nos seguintes princípios:
[...]
III - pluralismo de ideias e de concepções pedagógicas, e coexistência de instituições públicas e privadas de ensino;
[...]
Portanto, universidades não são espaços neutros ou homogêneos, mas ambientes de disputa intelectual e produção de conhecimento. A crítica externa a esse ambiente é legítima, mas não pode resultar em pressões para limitar o debate acadêmico, embora eu pense que eles não se refiram diretamente a essa questão.
Entendo que, embora críticas às universidades públicas sejam legítimas em uma democracia, esse tipo de generalização ignora dados objetivos sobre o papel das universidades federais no desenvolvimento científico, tecnológico e social do país.
Leitor, há ainda um aspecto pouco mencionado nesses discursos críticos ideológicos, que é a realidade educacional do próprio Brasil. Segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), apenas cerca de 18% da população brasileira com 25 anos ou mais possui ensino superior completo.
Trata-se de um índice bastante inferior ao observado em países desenvolvidos e até mesmo em diversas nações da América Latina.
Relatórios da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE)*, no estudo Education at a Glance, indicam que, entre jovens de 25 a 34 anos, aproximadamente 24% dos brasileiros concluíram o ensino superior, enquanto a média dos países da OCDE ultrapassa 49%.
*[Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), atualmente possui 38 países membros espalhados pelo mundo, da América do Norte e do Sul à Europa e à região Ásia-Pacífico. O Brasil é um Parceiro-Chave da OCDE desde 2007, juntamente com a China, a Índia, a Indonésia e a África do Sul, e em 2022 tornou-se candidato à adesão à OCDE].
Portanto, o desafio brasileiro não é o excesso de universidades, mas justamente o contrário, ainda temos poucos cidadãos com formação superior.
Nesse contexto, os discursos que analisamos, ao desqualificarem universidades e reduzirem o ensino superior a caricaturas ideológicas, não apenas ignoram dados objetivos da realidade educacional do país, como também contribuem para desestimular jovens a ingressarem na vida acadêmica, enfraquecendo uma das principais vias de mobilidade social, produção científica e desenvolvimento nacional.
As universidades desempenham funções que vão muito além da formação profissional, incluindo produção científica, desenvolvimento tecnológico, formação de professores e contribuição direta para políticas públicas.
No Brasil, mais de 90% da produção científica relevante é realizada em universidades públicas, o que demonstra seu papel estratégico para o desenvolvimento nacional.
A expansão dessas instituições nas últimas décadas também teve impacto relevante na interiorização do ensino superior. Santa Catarina é um bom exemplo desse processo, que permitiu o acesso de estudantes de regiões antes excluídas desse nível de formação.
Assim, embora as críticas apresentadas pelo empresário, pelo parlamentar e pelo pastor estejam protegidas pela liberdade de expressão e façam parte do debate democrático, elas podem e devem ser criticadas por desconsiderarem o papel estratégico das universidades públicas, estaduais e comunitárias na produção de conhecimento, na inovação científica, na extensão e na promoção de oportunidades educacionais em uma sociedade marcada por profundas desigualdades.
É necessário pensar e refletir antes de verbalizar argumentos baseados em meros achismos. A universidade pública não é um obstáculo ao trabalho; ao contrário, é uma das bases que sustentam a capacidade produtiva de um país.
Criticar universidades é legítimo. Aliás, instituições públicas e comunitárias devem sempre estar abertas ao debate, à avaliação e ao aprimoramento. O problema não está na crítica em si, mas na superficialidade com que ela muitas vezes é feita.
As críticas feitas por políticos, líderes religiosos e empresários frequentemente se baseiam em pseudociência, generalizações amplas, simplificações ideológicas e caricaturas do ambiente universitário.
Transformar universidades em caricaturas ideológicas pode até render aplausos em palanques, púlpitos ou redes sociais, mas não contribui para a compreensão de sua complexidade nem para a melhoria de sua qualidade.
As universidades não são perfeitas. Nenhuma instituição humana é. Porém, são espaços onde ciência, pesquisa, inovação e pensamento crítico se encontram. São ambientes onde diferentes ideias convivem, se confrontam e, muitas vezes, se transformam.
É exatamente isso que se espera de uma sociedade democrática.
Uma democracia forte não teme universidades. Ao contrário, precisa delas. No Estado Democrático de Direito, as universidades devem ser espaços de confronto de ideias e pensamentos, e não de uniformidade ideológica.
Porque cidadãos que atacam suas universidades frequentemente acabam atacando também a ciência, o pensamento crítico e a própria capacidade de compreender a realidade.
E quando isso acontece, quem vence não é a educação.
É a ignorância.
Pense nisso.
P.S. Vale lembrar a dura repreensão de Jesus aos líderes religiosos, chamando-os de hipócritas e comparando-os a "sepulcros caiados":
"Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas, porque sois semelhantes aos sepulcros caiados, que, por fora, se mostram belos, mas interiormente estão cheios de ossos de mortos e de toda imundícia!”
Mateus 23:27
Referências:
HANG, Luciano. Empresário Luciano Hang ataca universidades federais e reitor responde. YouTube, 12 nov. 2019. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=IolbKJkAwHM. Acesso em: 15 mar. 2026.
MARQUES, Gilson. “Se tem uma coisa que o Brasil não precisa é de mais universidade federal...”. YouTube, [s.d.]. Disponível em: https://www.youtube.com/shorts/xNXlcY2ukMQ. Acesso em: 15 mar. 2026.
MALAFAIA, Silas. Pastor Silas Malafaia fala sobre jovens evangélicos que estão sendo doutrinados nas universidades. YouTube, [s.d.]. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=SznprxMEx6E. Acesso em: 17 mar. 2026.
BRASIL. [Constituição (1988)]. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Brasília, DF: Presidência da República, [2016]. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm. Acesso em: 19 mar. 2026.
ABDALA, Vitor. Brasileiros adultos com ensino superior completo chegam a 18,4%. Agência Brasil, Rio de Janeiro, 26 fev. 2025. Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2025-02/brasileiros-adultos-com-ensino-superior-completo-chegam-184. Acesso em: 19 mar. 2026.
ORGANISATION FOR ECONOMIC CO-OPERATION AND DEVELOPMENT (OECD). Members and partners. Disponível em: https://www.oecd.org/en/about/members-partners.html. Acesso em: 19 mar. 2026.
DF é a unidade do país com maior proporção de pessoas com nível universitário: 37%. Times Brasil, [S.l.], 26 fev. 2025. Disponível em: https://timesbrasil.com.br/brasil/df-e-a-unidade-do-pais-com-maior-proporcao-de-pessoas-com-nivel-universitario-37/. Acesso em: 19 mar. 2026.
JANSEN, Roberta. Triplica número de pessoas com nível superior no Brasil; entenda o cenário. CNN Brasil, 26 fev. 2025. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/educacao/triplica-numero-de-pessoas-com-nivel-superior-no-brasil-entenda-o-cenario/. Acesso em: 19 mar. 2026.
BÍBLIA. Português. A Bíblia Sagrada. Tradução de João Ferreira de Almeida. Revista e atualizada no Brasil. 2. ed. Barueri, SP: Sociedade Bíblica do Brasil, 1993.