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AMÉRICA LATINA (DES)UNIDA:
Quando Tiram Tudo, Ainda Temos Uns Aos Outros
Por Ricardo Vianna Hoffmann
Publicado em 14/03/2026 06:18 • Atualizado 14/03/2026 06:40
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AMÉRICA LATINA (DES)UNIDA: Quando Tiram Tudo, Ainda Temos Uns Aos Outros

 

 se llevaron todo de nosotros Nosotros teníamos a nosotros

Se tiraram tudo da gente, a gente tinha a gente.

América Latina Unida, de Luiz Fumes

 

A frase presente na canção América Latina Unida, de Luiz Fumes, carrega uma poderosa síntese da história do continente americano. Ao longo dos séculos, muito foi retirado da América Latina: ouro, prata, petróleo, territórios, autonomia política e, em muitos momentos, até mesmo a democracia. Ainda assim, permanece a esperança de que a maior força deste continente esteja justamente em seus povos e na possibilidade de sua união.

A história da América Latina é uma história de riquezas cobiçadas e soberanias fragilizadas. Leitor, ouça a música “América Latina Unida”, de Luiz Fumes, cuja letra em espanhol pode ser encontrada no link:

https://www.youtube.com/watch?v=YKo8Mcdq3KM

Letra:

En los Andes y en los campos, la valentía se esparce
Nos Andes e nos campos, a bravura se espalha.

De norte a sur, nuestra historia no falla. Valentía y pasión en cada corazón latino.
De norte a sul, nossa história não falha. Bravura e paixão em cada coração latino.

Unidos como hermanos, trazamos nuestro destino. América Latina unida (América Latina unida).
Unidos como irmãos, traçamos nosso destino. América Latina unida (América Latina unida).

Si se llevaron todo de nosotros, nosotros teníamos a nosotros.
Se tiraram tudo da gente, a gente tinha a gente.

América Latina unida (América Latina unida).

Si se llevaron todo de nosotros, nosotros teníamos a nosotros.
Se tiraram tudo da gente, a gente tinha a gente.

En sambas y tangos, un baile de resistencia. En cafés colombianos celebramos existencia.
Em sambas e tangos, uma dança de resistência. Nos cafés colombianos celebramos a existência.

Resuena la energía del Paraguay, vibrante es nuestra voz en Potosí.
Ressoa a energia do Paraguai; vibrante é nossa voz em Potosí.

América Latina unida (América Latina).

Nuestra fuerza está en apoyarnos.
Nossa força está em nos apoiarmos.

América Latina unida, América Latina.

Si se llevaron todo de nosotros, nosotros teníamos a nosotros.
Se tiraram tudo da gente, a gente tinha a gente.

Valentía y pasión en cada corazón latino. Unidos como hermanos, trazamos nuestro destino.
Bravura e paixão em cada coração latino. Unidos como irmãos, traçamos nosso destino.

América Latina unida (América Latina).

Si se llevaron todo de nosotros, nosotros teníamos a nosotros.
Se tiraram tudo da gente, a gente tinha a gente.

Valentía y pasión en cada corazón latino. Unidos como hermanos, trazamos nuestro destino.
Bravura e paixão em cada coração latino. Unidos como irmãos, traçamos nosso destino.

América Latina unida.

Si se llevaron todo de nosotros, nosotros teníamos a nosotros.
Se tiraram tudo da gente, a gente tinha a gente.

Valentía y pasión en cada corazón latino. Unidos como hermanos, trazamos nuestro destino.
Bravura e paixão em cada coração latino. Unidos como irmãos, traçamos nosso destino.

América Latina unida (América Latina).

Si se llevaron todo de nosotros, nosotros teníamos a nosotros.
Se tiraram tudo da gente, a gente tinha a gente.

Valentía y pasión en cada corazón latino. Unidos como hermanos, trazamos nuestro destino.
Bravura e paixão em cada coração latino. Unidos como irmãos, traçamos nosso destino.

América Latina Unida.

 

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, está de olho nas riquezas dos países latino-americanos: em seu petróleo, em suas terras raras e em outros recursos naturais estratégicos. Sem qualquer grande preocupação, em razão de sua força bélica, sabe-se que nenhum país da América Latina possui condições militares de enfrentá-lo. Diz-se, inclusive, que o Brasil teria munição para apenas algumas horas de conflito. A maior força do Brasil reside, portanto, em sua diplomacia e em sua capacidade de enfrentamento argumentativo no cenário internacional.

Sem dúvida, a união da América Latina seria sua maior força para conter o avanço da avidez por suas riquezas e para evitar que a região se torne apenas um campo de disputa geopolítica entre grandes potências, como Estados Unidos e China.

A Carta das Nações Unidas estabelece, em seu artigo 2º, o princípio da igualdade soberana entre os Estados e a proibição do uso da força ou da ameaça contra a integridade territorial ou independência política de qualquer país (ONU, 1945).

Além disso, o artigo 1º do Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos e do Pacto Internacional sobre Direitos Econômicos, Sociais e Culturais afirma que todos os povos possuem o direito à autodeterminação e podem determinar livremente seu desenvolvimento político, econômico e social (ONU, 1966).

No plano regional, a Carta da Organização dos Estados Americanos reafirma o princípio da não intervenção ao estabelecer que nenhum Estado ou grupo de Estados possui o direito de intervir, direta ou indiretamente, nos assuntos internos ou externos de outro Estado (OEA, 1948).

Apesar dessas normas jurídicas, a realidade histórica latino-americana demonstra que a fragilidade institucional e a fragmentação política frequentemente abriram espaço para interferências externas. Nesse sentido, a integração regional pode ser compreendida não apenas como um projeto econômico ou diplomático, mas também como um instrumento de fortalecimento da soberania coletiva dos países do continente.

O autor latino-americano, Eduardo Galeano, destaca que a história do continente é marcada por processos de exploração e dependência, mas também por resistências culturais e políticas que continuam a moldar a identidade latino-americana.

No entanto, observa-se que os países latino-americanos permanecem desunidos. Muitos acabam por abraçar, ou, melhor dizendo, são abraçados, pelos Estados Unidos, restando-lhes apenas um sorriso amarelo diante de Trump, cujos olhos parecem brilhar como ouro diante das riquezas do continente.

Nossa união, juntamente com líderes políticos comprometidos com o bem-estar de seus povos, é que poderá impedir que a América Latina continue sendo tratada como um simples “quintal americano”. Não bastaram as tarifas impostas por Trump? Por que ainda desejam entregar nossa América Latina?

Precisamos desenvolver um novo olhar sobre nossa latinidade. Precisamos sentir orgulho dela. É necessário cultivar um verdadeiro sentimento de pertencimento latino-americano e nos libertarmos de uma nova síndrome: a dos “vira-latas latinos”, que tantas vezes nos leva a admirar o que vem de fora e a desprezar aquilo que nasce em nossa própria terra.

A nossa América Latina possui extraordinária diversidade cultural, riquezas naturais e uma história comum marcada por desafios e resistências. Mais do que recursos materiais, o continente possui povos capazes de construir novas formas de cooperação e solidariedade regional.

A mensagem da canção citada no início deste texto permanece atual. Mesmo quando tiram tudo da gente, a gente ainda tem a gente. E é justamente nessa consciência coletiva que reside a verdadeira força da América Latina.

Latinos, pensem nisso.

Ricardo Vianna Hoffmann

 

Referências:

BRASIL. Decreto nº 19.841, de 22 de outubro de 1945. Promulga a Carta das Nações Unidas, da qual faz parte integrante o Estatuto da Corte Internacional de Justiça, assinada em São Francisco em 26 de junho de 1945. Diário Oficial da União, Rio de Janeiro, 1945. Disponível em: Decreto nº 19.841/1945. Acesso em: 14 mar. 2026.

BRASIL. Decreto nº 592, de 6 de julho de 1992. Promulga o Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos. Diário Oficial da União, Brasília, 7 jul. 1992. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto/1990-1994/d0592.htm. Acesso em: 14 mar. 2026.

BRASIL. Decreto nº 591, de 6 de julho de 1992. Promulga o Pacto Internacional sobre Direitos Econômicos, Sociais e Culturais. Diário Oficial da União, Brasília, 7 jul. 1992. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto/1990-1994/d0591.htm. Acesso em: 14 mar. 2026.

 

ORGANIZAÇÃO DOS ESTADOS AMERICANOS (OEA). Carta da Organização dos Estados Americanos. Bogotá, 1948. Disponível em: https://www.dhnet.org.br/direitos/anthist/marcos/hdh_carta_oea_1948.pdf. Acesso em: 14 mar. 2026

GALEANO, Eduardo. As veias abertas da América Latina. Porto Alegre: L&PM, 2010.

 

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